Política Tecnológica, IA · 14 Out 2024

A Armadilha do Nacionalismo Tecnológico — Lições da Reserva de Mercado na Era da IA

Introdução

Recentemente, a União Europeia e o Brasil têm direcionado esforços para desenvolver modelos "nacionais" de inteligência artificial. Embora essa iniciativa possa parecer estratégica para fortalecer a soberania tecnológica, ela me faz recordar a "brilhante" ideia dos militares brasileiros nos anos 80 de instituir a reserva de mercado para a informática. É como acreditar que, ao forçar a existência de fábricas nacionais de bicicletas, formaríamos melhores ciclistas.

Lembrando o passado

A história nos mostra que a reserva de mercado para a informática resultou em atraso tecnológico e isolamento. Enquanto o mundo avançava na era digital, o Brasil permanecia estagnado, utilizando equipamentos defasados e caros. Essa política protecionista não impulsionou a inovação interna como se esperava; pelo contrário, criou barreiras que dificultaram o acesso a tecnologias de ponta e limitaram a competitividade das empresas brasileiras no cenário global.

Nada impede que cada nação foque em desenvolver seus próprios modelos de inteligência artificial. A busca por autonomia tecnológica é legítima e pode trazer benefícios específicos. No entanto, minha crítica reside na ideia de proibir ou limitar o uso de modelos estrangeiros, ou ainda, destinar recursos públicos substanciais para criar LLMs (Large Language Models) nacionais que consomem investimentos significativos. Esses recursos poderiam ser direcionados para a criação de soluções inovadoras que utilizassem os modelos já existentes no mercado, otimizando tempo e capital.

O recente lançamento do GPT@EC pela Comissão Europeia exemplifica essa tendência de focar em soluções internas. Embora a intenção seja positiva, visando aproveitar os benefícios da IA nos processos administrativos, questiona-se se essa é a melhor estratégia.

Conclusão

Insistir em desenvolver modelos nacionais pode nos levar a repetir erros do passado. A inovação tecnológica é impulsionada pela colaboração global, pelo compartilhamento de conhecimento e pela integração de esforços. Isolar-se nesse contexto pode significar ficar para trás na corrida tecnológica.

Não há problema em cada nação buscar fortalecer sua capacidade tecnológica. Contudo, proibir outros modelos ou alocar vastos recursos públicos para desenvolver LLMs nacionais pode não ser a estratégia mais eficiente. Em vez disso, deveríamos aproveitar as tecnologias existentes, adaptá-las às nossas necessidades e investir em soluções que realmente façam a diferença.

Aprender com os erros do passado é essencial para avançarmos de forma sustentável no cenário tecnológico global. Ao invés de repetir políticas que nos isolam, devemos nos abrir para o mundo, colaborar e integrar, garantindo que estejamos na vanguarda da inovação e preparados para os desafios do futuro.

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